Não se trata exatamente de tecnologia, mas a históra é boa: no início dos anos 40, a guerra se espalhava pelo mundo. O Brasil, sob a ditadura Vargas, adotava uma posição dúbia: ora parecia apoiar os alemães e italianos, ora os ingleses, ora dava sinais de que permaneceria neutro.
O SM.82 |

As atividades da LATI preocupavam o serviço secreto inglês: ela transportava agentes, produtos de uso militar, material de propaganda, etc. Os pilotos italianos também informavam os submarinos alemães e italianos acerca da posição de navios ingleses.
Apesar das pressões inglesas no sentido de que o governo brasileiro proibisse as operações da LATI, nada era feito nesse sentido. Além da posição dúbia de Vargas, o fato de um de seus genros ser diretor da LATI no Brasil talvez possa explicar essa inércia. Era digno de nota o fato de ser a americana Standard Oil quem fornecia combustível aos aviões italianos – os americanos, apesar de ainda fora da guerra, eram francamente pró-Inglaterra, mas afinal, negócios são negócios...
Percebendo que as pressões não surtiriam efeito, os ingleses conceberam um plano: lançar Vargas contra a LATI. O plano foi executado por agentes ingleses e canadenses, com a ajuda involuntária de americanos e poderia perfeitamente servir como enredo para um filme de aventura – afinal, Ian Fleming, o criador de James Bond, trabalhava para o serviço secreto de Sua Majestade, em contato com os canadenses.
A ideia era forjar uma carta do presidente da LATI, Aurelio Liotta, dirigida ao diretor geral da empresa no Rio, o comandante Vincenzo Coppola. A carta deveria conter termos ofensivos a Vargas e aos brasileiros, de forma a tornar insustentável a posição da empresa no Brasil. Mas para que não surtisse efeito contrário ao desejado, deveria parecer autêntica.
O plano começou a ser executado com o roubo dos arquivos da LATI de uma carta assinada pelo presidente da companhia, que foi levada para o Canadá, onde se produziu um papel timbrado idêntico ao utilizado pela empresa.
O próximo passo foi fazer a carta chegar a Vargas. Os agentes ingleses no Rio contrataram um ladrão para que furtasse alguns objetos da casa de Coppola; o comandante deu parte à polícia e o assunto foi aos jornais, que era exatamente o que os ingleses queriam.
Um brasileiro que trabalhava para os ingleses, simulando ser o ladrão, procurou um jornalista americano, propondo-lhe vender a carta, que teria “encontrado” na casa. O jornalista aceitou e repassou-a ao embaixador americano, que a levou pessoalmente a Vargas; este não teve alternativa: o último voo da LATI ocorreu em 19/12/41 – foram 211 viagens.
Os bens da empresa foram confiscados e seus empregados italianos internados, menos um: o comandante Coppola, que na véspera do fechamento da empresa, sacou todo o dinheiro da companhia de um banco do Rio (cerca de um milhão de dólares, hoje cerca de dezessete milhões) e desapareceu. Mais tarde, foi preso tentando cruzar a fronteira argentina, tendo sido condenado a sete anos de prisão (que não se sabe se foram cumpridos) e multado em 85 mil dólares por infração das leis brasileiras, multa que não se sabe se foi paga. Parece que o crime compensou!